5. INTERNACIONAL 28.8.13

1. O INFERNO S COMEOU
2. O INFORMANTE REVELA: ELE  ELA

1. O INFERNO S COMEOU
O gs sarin paralisa os msculos e mata por asfixia. Seu uso contra civis, como ocorreu na Sria no dia 21, ser difcil de frear.
NATHALIA WATKINS 

     Com dezenas de depsitos abarrotados de armas qumicas, a Sria  um pas com um dos maiores arsenais de substncias venenosas do mundo  e o mais perigoso, pela situao interna de alta volatilidade. Quando manifestaes populares contra o regime ditatorial hereditrio de Bashar Assad se transformaram num conflito hoje denominado guerra civil, havia duas preocupaes: as armas qumicas poderiam ser transferidas para as regies do Lbano sob controle do Hezbollah, a organizao xiita aliada das minorias equivalentes na Sria, ou usadas contra reas rebeladas, onde a populao  sunita, a corrente majoritria da religio muulmana. Com a intensificao da mtua e brutal matana, acirrada pela interferncia de aliados externos dos dois lados, surgiu um terceiro temor, o de que combatentes da mesma linha da Al Qaeda, lutando com as foras rebeldes, conseguissem dominar estoques dessas armas. As explicaes prvias so necessrias porque o provvel ataque com gs sarin numa rea perto de Damasco na manh da quarta-feira passada, em que morreram entre 600 e 1300 pessoas, muitas das quais crianas, foi creditado ao regime de Assad  talvez at a um comandante indisciplinado ou insubordinado , mas no era absolutamente impossvel, at a noite de sexta-feira, que tivesse partido do lado dos rebeldes.  isso que dizem Assad e o governo russo, que o apoia  e  isso que dizem sempre. Um dos aspectos mais assustadores do conflito na Sria  que at os que mentem sempre s vezes esto certos. 
     A distribuio geogrfica e militar apontava para forcas do regime. A hiptese mais verossmil  que msseis com gases txicos tenham sido lanados contra trs localidades prximas  capital sria porque vrios bairros afetados so dominados por foras rebeldes. As reas estavam sendo alvo de bombardeios convencionais e moradores apavorados buscaram abrigo em pores. O ataque qumico surpreendeu-os em situao mais vulnervel ainda. Os gases venenosos, mais pesados que o ar, se acomodam em lugares mais baixos. A presena de edifcios reduz a dissipao no ar e agrava os efeitos txicos. "As crianas possuem sistema respiratrio mais frgil que o dos adultos e por isso sofreram mais", diz o engenheiro qumico coreano Jiseok Lee, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, o que ajuda a explicar as cenas arrepiantes com corpos de dezenas de meninos e meninas enfileirados, sem ferimentos aparentes. O gs sarin provoca contrao das pupilas, salivao abundante e perda do controle dos msculos respiratrios, levando  morte. Quem socorreu as primeiras vtimas tambm sofreu os efeitos txicos. "Muitos sentiram falta de ar, tontura e comearam a tossir. Tinham apenas mscaras improvisadas", disse a VEJA um dos voluntrios que trabalharam em um dos hospitais de Goutha. 
     Os msseis caram trs dias depois da chegada de inspetores da Organizao das Naes Unidas a Damasco para verificar o uso de armas qumicas em ocasies anteriores. Parece ilgico, mesmo num mundo onde impera a lgica da aniquilao total do inimigo, que o governo srio tivesse ordenado os ataques do tipo e criado provas contra si prprio. "Assad certamente usaria artefatos qumicos em caso da perda iminente de cidades importantes, mas Damasco no estava sendo ameaada", explica o especialista em Oriente Mdio Firas Abi Ali, da consultoria IHS, em Londres. O ditador estava at em um momento relativamente favorvel, com vitrias militares importantes. O uso de armas de destruio em massa contra civis poderia derrubar at o habitual veto da Rssia e virar o gatilho de uma interveno militar com a chancela da ONU. 
     Entre as demais possibilidades, cogita-se que um armazm industrial, com elementos qumicos, teria sido atingido pelos bombardeios e causado a tragdia. Tambm surgiu a tese de que o ataque foi uma reao radical de Assad diante do avano de 300 combatentes rebeldes treinados pela agncia americana de inteligncia, a CIA, na Jordnia. Num ambiente de muita especulao e pouca informao, tambm vicejaram suspeitas de que a ordem tivesse partido do irmo de Assad, o supostamente mais extremado Maher. Mas a verdade  que a famlia tem tradio no ramo. O fundador da dinastia, Hafez Assad, dizimou 20.000 sunitas em 1982, sufocando uma rebelio religiosa. Foi o maior massacre da era recente praticado por um dirigente rabe contra seus prprios cidados. Seu herdeiro, Bashar, era considerado uma verso light do pai at que o conflito atual ps seu pescoo, e o de toda sua minoria religiosa, em risco. Calcula-se que o conflito desatado em 2011 j tenha deixado mais de 100.000 mortos. 
     Os rebeldes tambm tm plena capacidade de manusear armas qumicas e bons contatos para consegui-las. Muitos so desertores e foram treinados pelos mesmos comandantes que agora combatem. " terrvel pensar que rebeldes assassinaram os prprios simpatizantes, mas  difcil descartar essa possibilidade", diz o cientista poltico Greg Thielmann, da Associao de Controle de Armas, baseada em Washington. Jihadistas radicais decapitam cristos, chicoteiam sunitas que paream frouxos nas exigncias religiosas extremas e j entraram em choque armado com outros rebeldes. Coisas piores sempre esto por vir na Sria.


2. O INFORMANTE REVELA: ELE  ELA
Os heris da era dos vazamentos digitais expem as prprias intimidades como se tivessem a relevncia de segredos de estado  e at tentam ligar uma coisa  outra.
DUDA TEIXEIRA E TAMARA FISCH

     A popularizao da internet fez surgir uma estranha linhagem de candidatos a heris. So, em geral, hackers imbudos de um messianismo digital ou simplesmente nerds que, por um motivo ou outro, tiveram acesso a documentos confidenciais. Ao contrrio dos heris clssicos dos quadrinhos do sculo XX, os de carne e osso deste incio de milnio no fazem questo de ter uma identidade secreta. Eles gostam mesmo  de se submeter  adulao pblica. Alm de revelarem segredos de interesse pblico, tratam de expor os de carter privado  deles prprios, diga-se. Quando o soldado americano Bradley Manning entregou ao site WikiLeaks mais de 700.000 arquivos militares e diplomticos secretos dos Estados Unidos, em 2010, foi imediatamente promovido a paladino da causa antiamericana e pacifista. Foi esse tambm o papel que assumiu desde que foi identificado e preso. Em fevereiro, ao depor num tribunal militar, comparou a ao dos pilotos americanos de helicpteros Apache no Iraque a "crianas torturando formigas com lentes de aumento". Aos poucos, sua defesa mudou de ramo. Manning e seu advogado passaram a insinuar que o vazamento de dados foi motivado pelo stress, consequncia de uma srie de conditos psicolgicos no resolvidos, com foco especial em um transtorno de "identidade de gnero". Manning disse que se alistou no Exrcito em 2007 para livrar-se da sensao de que, apesar de ter nascido homem, na verdade era mulher. No funcionou. Em uma foto enviada a um psiclogo do Exrcito, quando j servia no Iraque, Manning aparece de peruca loira e batom. "Meu problema" era o ttulo da mensagem. Na semana passada, ele foi condenado a 35 anos de priso por vinte crimes, como roubo de informaes e espionagem. Pode ser solto em apenas sete anos. Saiu barato. Logo aps a divulgao da sentena, um pronunciamento seu foi lido em um programa de televiso americano: "Eu sou Chelsea. Sou do sexo feminino. Dada a maneira como eu me sinto, desde a infncia, quero comear uma terapia hormonal o mais cedo possvel. Espero que vocs me apoiem nessa transio". 
     Em resumo, Bradley, alis Chelsea, quer que o mesmo governo do qual furtou documentos pague para que ele se sinta mais confortvel dentro da prpria pele. S faltou pedir para ficar em um centro de deteno feminino. Dificilmente, porm, ele vai conseguir o que quer. Embora sesses de terapia hormonal sejam fornecidas em prises normais nos Estados Unidos, o mesmo no ocorre nas que so controladas pelas Foras Armadas. Com a sua mais recente revelao, Manning ampliou o leque de grupos que o tm como dolo. Ele agora  um smbolo dos antimilitaristas, dos piratas digitais e dos movimentos transgneros. Ainda que mude de sexo, Manning no alterar a imagem que os americanos j fizeram dele. Seis em cada dez acreditam que o soldado ps em risco a segurana do pas ao vazar dados secretos. "Manning foi adotado por vrias causas. A maioria dos cidados, porm, o considera apenas pattico", diz Eugene Fidell, professor de Justia Militar da Universidade Yale. 
     Para os heris da era digital, misturar questes pessoais com coletivas  uma forma tanto de lustrar o prprio ego quanto de se blindar contra punies mais duras. O analista de inteligncia americano Edward Snowden, que revelou um abrangente sistema de vigilncia de cidados pelos Estados Unidos, nunca pensou no anonimato. Quando ainda estava no primeiro destino de sua fuga, Hong Kong, gravou um vdeo para criticar a agncia americana de inteligncia, a NSA, para a qual trabalhava como funcionrio terceirizado. Acabou conseguindo asilo na Rssia, um pas que no respeita exatamente as liberdades individuais. O australiano Julian Assange, fundador do WikiLeakes, est refugiado na embaixada londrina de um dos pases campees em cercear a livre expresso: o Equador. 
     A dificuldade de separar o pblico do privado parece ter acometido tambm o jornalista americano Glenn Greenwald, um dos primeiros a publicar os arquivos vazados por Snowden. No domingo 18, seu marido, o brasileiro David Miranda, foi interrogado por nove horas no aeroporto de Heathrow, em Londres. Ele havia embarcado em Berlim, tendo como destino final o Rio de Janeiro, e levava consigo arquivos digitais para Greenwald: um videogame com capacidade de armazenar dados, pen drives, um celular, um notebook, dois cartes de memria e dois DVDs. As passagens tinham sido pagas pelo jornal The Guardian, em que Greenwald trabalha e que tem publicado matrias baseadas nos arquivos roubados por Snowden. A polcia inglesa confiscou o material com base na lei de antiterrorismo. "At a mfia tinha normas ticas que condenavam o ataque a familiares das pessoas que a ameaavam", disse Greenwald, e prontamente prometeu se vingar divulgando documentos sobre a atuao dos servios de espionagem da Inglaterra. 
     Greenwald no tem razo para levar a deteno de Miranda para o lado pessoal. Ao enviar o marido a Berlim para pegar mais um pacote de documentos de Snowden, com passagens pagas pelo Guardian, ele estava conscientemente envolvendo-o em seu trabalho e nos riscos associados a ele. Na quinta-feira passada, a Scotland Yard abriu uma investigao criminal a partir do material apreendido e disse que exames preliminares identificaram informao altamente sensvel, cuja divulgao poderia pr vidas em risco. "Se um estado suspeita que a divulgao de certos dados pode ajudar terroristas, tem a obrigao de tomar uma atitude", diz a advogada Maristela Basso, professora de direito internacional da Universidade de So Paulo. Espionagem internacional no  briga de comadres. 


